Grandes avós-maternos e a genética
Sergio Barcellos
Secretariat (Bold Ruler e Somethingroyal, por Princequillo), tríplice-coroado americano, a máquina aeróbica perfeita, considerado um dos maiores modelos de eficiência biomecânica da raça, assombrou o mundo do turfe nos anos ‘70 e foi encaminhado à reprodução precedido pelo mar de pompas de seus extraordinários feitos nas pistas. Dos filhos de Secretrariat, porém, poucos brilharam nos hipódromos do mundo. Mas os produtos gerados por suas filhas são hoje responsáveis por animais importantes da criação mundial. Por outras palavras, Secretariat é muito mais efetivo como avô-materno do que como pai.
Da mesma forma, as filhas de Darshaan (Shirley Heights e Delsy, por Abdos), criação Aga Khan, são responsáveis por mais de 200 ganhadores de Grupo nos cinco continentes, 40 deles vencedores de Grupo I, um contingente acima de qualquer suspeita. De seus filhos, entretanto, apenas dois se destacam como progenitores: Dalakhani e Mark of Esteem, a cujo crédito conta-se, até agora, 10 laureados de Grupo.
Secretariat tinha Princequillo como avô-materno, um dos maiores da longa história da criação, e que está na base da verdadeira revolução produzida no turfe dos EUA nos anos que se seguiram à II Guerra Mundial, quando Arthur“Bull” Hancock Jr, da Clairborne Farm, entregou suas filhas ao temperamental Nasrullah. E criou uma das maiores afinidades da indústria do puro-sangue em qualquer época.
Darshaan, por sua vez, tem a Abdos como avô-materno, um reprodutor do ocaso da criação Boussac, que só ocasionalmente figurou na estatística de pais de ganhadores na França, e menos ainda na de pais de reprodutores. Contudo, as filhas do subestimado Abdos são responsáveis por mais de uma dezena de vencedores de Grupo I do turfe europeu (Darshaan aí incluído).
De onde vem o mistério dos grandes avôs-maternos do turfe internacional, aqueles animais capazes de produzir filhas que dão sentido à sua existência, catalogados por Francesco Varola como os grandes “geradores de talento feminino?”
Como se explica que Secretariat, Darshaan e tantos outros corredores de altíssima performance sejam incapazes de transmitir suas habilidades de modo íntegro e equilibrado em linha masculina, embora brilhem em linha feminina?
Pois é exatamente a estas duas questões que os geneticistas da Universidade de Medicina Veterinária de Cornell, EUA, têm se dedicado (vide “Paternally expressed genes predominate in the placenta”, publicado pela National Academy of Sciences, da América, em dezembro de 2013), e que vem sendo motivo da atenção dos criadores de cavalos de corrida do mundo.
Entra a moderna genética
O que os cinco geneticistas de Cornell (X. Wang, D.C. Miller, R. Harman, D.F. Antzack, e A.G. Clark) estão começando a descobrir, é que embora os genes de um feto trabalhem em par – um de cada progenitor -, uma pequena quantidade dos genes nos mamíferos, chamados de “impressores” (do inglês, “imprinted”), escolhem em que lado atuar, “silenciando” temporariamente a outra metade. Por outras palavras, a metade “silenciada” (seja a do pai, seja a da mãe) está lá, mas não se manifesta no processo de formação do embrião.
Nos humanos, há cerca de 60 desses genes (“impressores”, no caso). Nos eqüinos, o grupo de Cornell identificou 93 genes, 78 dos quais são típicos da espécie.
Mas a descoberta vai um pouco além. Nos eqüinos, o estudo conclui que é o genes paterno que predomina na formação da placenta. Textualmente: “A placenta feminina suporta o feto e a mãe, mas ela cresce e se desenvolve pela intervenção dos genes do pai. Isso vem em oposição à tese normalmente aceita de que é sempre a mãe quem a controla inteiramente. Nos eqüinos, seu desenvolvimento deve-se à maior contribuição do genoma paterno.”
Há algumas vantagens neste tipo de “design”, como explica o Dr. Wang, chefe da equipe de Cornell. Uma das quais, é o melhor gerenciamento do conflito genético entre um feto masculino e sua mãe. E, do ponto de vista da criação, serve para explicar o “fenômeno dos avós-maternos”, ou seja, o fato de que os filhos de certos reprodutores podem ter seus genes “impressores” (consequentemente, sua habilidade atlética) eventualmente “silenciados” durante uma geração.
Assim, pode ocorrer que filhas de determinados reprodutores, ao herdar seu capital genético via placenta de sua mãe, não conseguem exprimir em corrida as características atléticas ligadas a esses tipos de genes, embora estejam capacitadas a transmiti-los aos seus produtos na geração seguinte.
“Alguns genes como aqueles chamados de ‘genes da velocidade’, uma característica dos grandes cavalos de corrida, saltam (“skip”) uma geração e se expressam apenas na geração seguinte. Neste momento, estamos tentando desenvolver um método para identificar genes “impressores” ligados à natureza de certos animais, e que podem ajudar no processo de decisão dos criadores”, explica o Dr Wang.
O progressivo conhecimento da genética dos seres vivos tem dado saltos nos últimos anos, e agora conta com o auxílio da informática para tornar tudo ainda mais rápido. O que antes se conhecia na base empírica de levantamentos estatísticos, ganha contornos de ciência em toda a sua extensão.
Ao ponto de na Argentina, por exemplo, já ter começado a clonagem de cavalos de pólo. E ao ponto da Federação Internacional das Autoridades Hípicas (FIAH), através de seus comitês técnicos, já ter começado a discutir de como lidar com eventuais problemas de alteração do genoma de cavalos de competição.
Mas é na criação que as recentes pesquisas genéticas têm colaborado para melhor entender de como funciona, e quais são as regras do verdadeiro jogo de xadrez com a natureza travado pelos grandes construtores do cavalo de corrida de nossos dias.
Depois das descobertas da equipe de Cornell, o site francês DNA Pedigree, um dos mais modernos da Europa, recentemente associado ao inglês Weatherbys, já informou que, doravante, vai passar a colocar em negrito os nomes dos avós-maternos de cada animal por eles pesquisados.
[Aliás, nos antigos programas do Jockey Club Brasileiro da década de ‘90, os nomes dos avós-maternos eram regularmente informados ao público e aos apostadores. Hoje não mais.]
Para quem estiver interessado em ler mais sobre o assunto, segue-se a bibliografia a respeito:
. Cornell University (2013, August 15). “Dad’s genes build placentas, explaining grandsire effect.” Science Daily. Retrieved December, 27, 2013.
. DNA Pedigree (dna-pedigree.com). “L’influence du père de mére expliquée para la génétique.” France, 09/10/2013.
. “Paternally expressed genes predominate in the placenta.” Proceedings of the National Academy of Sciences (NASC) of the United State of America. June, 2013
Raia Leve
www.raialeve.com.br
Foto: Zenyatta.com
By De Turfe Um Pouco
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